18 de set. de 2011

A proximidade e a distância das canções dos festivais

Um dos motores da elaboração do Projeto Parcerias-MPB foi a tentativa de experenciar o quão próximo e o quão distante estamos do sentido e do tempo das canções oriundas dos festivais de música popular – promovidos pelas tevês Excelsior, Record, Tupi, TV RIO e Globo, sobretudo, nas décadas de 60 e 70.  Neste sentido, uma retomada crítica dos ícones da MPB a partir dos festivais nos pareceu extremamente propícia. Isto porque a atividade do cancioneiro popular, oriunda de tal cenário guarda uma profunda singularidade para a cultura e identidade nacional. Contudo, tal atividade também se revela por um processo ambíguo: por um lado, representa a supremacia da Indústria Cultural sobre as manifestações populares e, por outro, pode ser adotada como uma espécie de marco de um tempo em que, para alguns, a produção da música, dita de consumo, parecia não estar tão distante de um lastro de qualidade.

A singularidade desse momento histórico, também, ajudou a marcar a efervescência estética de uma sociedade que se encontrava dividida entre o apoio e a oposição ao regime da ditadura militar. À medida que, por um lado, a repressão recrudescia, por outro, as manifestações artísticas - principalmente musicais - ganhavam relevo como alternativa de resistência, principalmente, por parte dos estudantes e militantes de esquerda. Entretanto, a direita também tinha ouvidos para as músicas dos festivais – que com ou sem a intencionalidade de seus autores – acabavam posicionadas de um lado ou de outro do campo ideológico.
Sobre os dois lados da moeda, a MPB se constituiu como um produto de alto padrão de consumo e historicamente acabou sendo associada a um estilo mais palatável à elite. Contudo, poder-se-ia perguntar: a música popular brasileira ainda é ou, ainda, deve ser tratada como música destinada às classes mais favorecidas?  Qual o lugar dela hoje?  Como soa aos ouvidos atuais A banda, Disparada,  Ponteio, Morro Velho, Domingo no Parque, Alegria Alegria, Para Não dizer que não falei das Flores, Divino Maravilhoso, Sabiá, Tive Sim, Sinal fechado, Travessia, Porta-Estandarte, Arrastão entre outras canções de outro tempo?

(Paulo Antunes)

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